TÊMPERA DE AÇO
Ubiratan Lustosa
Humberto de Campos, em seu livro "O BRASIL ANEDÓTICO", conta uma passagem interessante que bem traduz a têmpera de aço de alguns homens do passado.
Joaquim Manoel de Macedo, o célebre romancista autor de "A
MORENINHA", era professor das princesas, filhas de Dom Pedro II.
Desempenhando o seu mandato de Deputado Geral, foi convidado pelo
Conselheiro Francisco José Furtado - que organizava o gabinete Liberal de 31 de
agosto de 1864 - para a Pasta dos Estrangeiros. Joaquim Manoel de Macedo recusou
essa honraria e Dom Pedro II mandou chamá-lo a sua presença. Perguntou o
Imperador por que não aceitara o ministério quando tinha tantas qualidades para
ser um bom Ministro.
Aí, o escritor respondeu:
- "Admita-se que eu tenha as qualidades que Vossa Majestade me
atribui, mas eu não sou rico, requisito indispensável a um Ministro que queira
ser independente".
E acrescentou com decisão:
- "Eu não quero sair do Ministério endividado ou ladrão!"
A gente fica impressionado com os escrúpulos do grande romancista, a sua dignidade, a sua coragem e o seu desprendimento. A sua atitude nos dá a dimensão da honradez e do caráter desse homem que preferiu não ser Ministro para não correr o risco de se deixar corromper.
Do Império até a República dos nossos dias muitos homens
passaram pelos cargos públicos e, muitos deles, até negociaram a sua indicação e
nomeação inescrupulosamente. Muitos enganaram aos governantes que neles
confiaram e se locupletaram em suas funções. Para pasmo da população, houve até
ladrões nessas posições de confiança de cujos ocupantes se espera um proceder
correto e uma vida sem manchas.
Muitos homens despreparados intelectual e
moralmente ocuparam altos postos em nosso país ao longo da nossa História.
Felizmente, em saldo positivo para a nação, tivemos, também, grandes patriotas,
homens sérios e dignos que amaram ao Brasil e seu povo e se desimcumbiram com
altivez, dignidade, competência e lisura.
Lembrar exemplos como esse de Joaquim Manoel de Macedo serve
para alertar aos que influem nas nomeações e, igualmente, aos que têm as canetas
que nomeiam para as funções públicas, que se deve sempre fazer uma rigorosa
seleção antes de entregar a alguém um cargo de confiança. É preciso que se leve
em conta a capacidade para a execução do trabalho, e é imprescindível ter
certeza da idoneidade e da moral ilibada de quem se indica ou nomeia.
Os
interesses de pessoas ou grupos nem sempre permitem que isso aconteça e em
decorrência das seleções e escolhas mal feitas o povo tem amargado tantos casos
de escabroso abuso do poder público.
É da responsabilidade dos líderes a boa seleção de seus
auxiliares, em qualquer nível e em qualquer lugar.
A nação não apenas merece,
mas tem o direito e exige essa seriedade.
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