QUARTA-FEIRA DE CINZAS
Ubiratan Lustosa
Em sua liturgia da Quarta-feira de Cinzas a Igreja nos convida
a uma reflexão com esta serena e crua advertência: "Lembra-te
homem que és pó e ao pó retornarás".
Com estas palavras nos lembra a nossa condição de matéria
perecível, convidando-nos a refletir sobre o que verdadeiramente
importa nesta passagem pelo mundo onde tudo o que a ele se liga é
fugaz.
Convida-nos à prática e ao cultivo da humildade, virtude que
tanto dignifica e engrandece o ser humano. Lembra-nos que não passamos
de mísero pó, frágil argila que se desfará com
o tempo. Faz com que lembremos que bem pouco valem as conquistas terrenas,
as honrarias adquiridas, a fortuna e o poder, já que são limitados
a uma vida que, por longa que seja, nada significa ante o insondável
mistério da eternidade.
Lutamos tanto em busca de glória, de dinheiro e de poder, consumindo nesse afã a maior parte das nossas vidas, para terminarmos um dia na rasa igualdade que é o destino de todos, voltando ao pó de nossa origem.
Os homens passam e com eles aquilo que obtenham no terreno material onde tudo é finito. Valerá apenas o que tenham obtido no terreno espiritual, o bem que praticaram, a utilidade que tiveram na coletividade em que viveram, as virtudes que cultivaram, o aperfeiçoamento que atingiram para as suas almas, estas sim libertas da inexorável lei da morte e do fim.
E é bem numa Quarta-feira de Cinzas, após o carnaval, que a Igreja nos faz essa advertência. Após a diversão, a alegria, a festa, a folia, vem a dura chamada à realidade: "Lembra-te homem que és pó e ao pó retornarás". É um convite à reflexão neste início de Quaresma, período cristão de recolhimento, penitência e oração.
O carnaval passou. Festa popular que cada vez mais se transforma
em reinado da licenciosidade, deve ter servido para aliviar tensões,
expulsar traumas, enxotar fantasmas de recalques tão comuns hoje
em dia. Os abusos, os exageros, sem que tenham a aprovação
das pessoas de bom senso, devem ter servido para alguma lição
a quem os praticou.
Agora, o retorno à realidade, ao trabalho, à disciplina.
E quem sabe a gente se esforça um pouco mais na busca do nosso verdadeiro
destino que não se limita a este mundo em que somos apenas pó,
mas na vida eterna por Cristo prometida.
Do livro
"Nosso Encontro com Ubiratan Lustosa".
(Instituto Memória Editora - 2013).